sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Filme #53

A perseguição feita ao cigarro e aos fumantes hoje em dia está partindo do campo da saúde pública para a esfera da neurosa coletiva. Li hoje cedo na Folha Online que o cartaz do filme Gainsbourg - vie héroïque, cinebiografia do artista francês Serge Gainsbourg foi proibido porque, ao retratar o ator principal fumando, estaria promovendo apologia ao tabaco. Caso ainda mais grotesco foi o poster de divulgação de uma mostra de filmes do também francês Jacques Tati. Seu grande personagem, Monsieur Hulot tem, como marca registrada, um cachimbo. Pois bem, no poster, via-se Hulot numa bicicleta fumando um... Catavento?

Fico pensando o que o próprio Tati iria pensar de uma coisa dessas. Suas comédias são críticas refinadíssimas aos tempos modernos, vistos por ele como uma espécie de "mundo chato dos adultos". O grandalhão Hulot, sempre metido em cenas atrapalhadas, é a doce (e irônica) resposta de Tati a uma sociedade repleta de preocupações e seriedades desnecessárias. Neuroses anti-fumo? Perseguição e delação de fumantes? Canetassos de autoridade da gestão Serra? Esse tipo de coisa me lembra uma cena de seu As férias do senhor Hulot: são os últimos momentos das férias e o hotel decide fazer um baile à fantasia para seus hóspedes. O salão está montado e as crianças preparam-se e enchem-se de expectativas. Na hora do vamos ver, contudo, ninguém aparece além delas: todos os adultos estão preocupados demais ouvindo as notícias econômicas e os novos decretos políticos no rádio, até que surge um grandalhão vestido de pirata que é, claro, o próprio Tati.

Jacques Tati e seu cachimbo? Sem dúvida. Neuroses e políticas públicas baseadas em proibições e canetassos de autoridade, daí não. Ótimo feriado e um abraço aos meus queridos amigos, estejam eles dentro dos bares de São Paulo ou na área dos fumantes.

As férias do senhor Hulot, Jacques Tati, 1953.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Profissão: Terapeuta ocupacional

Uns tempos atrás conversava com uma amiga minha que estava em dilema entre ir ou não para outra área profissional. Hoje, formado na (não tão) gloriosa ciência econômica e com amigos nas mais diversas atuações, percebo que esse papo de que o curso que você vai prestar no vestibular vai definir a sua vida é uma das grandes balelas que colocam na cabeça dos aflitos garotos do terceiro ano do ensino médio. Na real, quem aí sabia o que queria ser da vida aos 17 anos de idade? Quem o sabe hoje?

O outro papo é o de atrelar pompa e cerimônia às carreiras, como se apenas um homem áustero e heróico pudesse exercer a advocacia ou somente os pios e samaritanos a medicina. Mas tá cheio de médicos que tão pouco se lixando para os pacientes. O corpo dos outros é, para eles, objeto de trabalho, tipo um açougueiro. Mas e aí, eu vou falar que eles são piores ou menos profissionais por causa disso? Sabe, foi-se o tempo em que carreira e índole pessoal caminhavam passo-a-passo. Para o bem e para o mal, as pretensões pessoais e as pretensões profissionais vão se descasando. Em tempos de mega-fusões, compras e falências bilionárias faz sentido essa história de "vestir a camisa" de uma empresa? Será que no fundo não caminhamos para um mundo onde o trabalho vire algo análogo a uma terapia ocupacional remunerada?

Nos países regidos pelo estado do bem-estar social isso aí é mais que claro. Lembro-me que na Alemanha bastava você ter uma coordenação motora e mental mínimas (e, óbvio, não ser um imigrante ilegal) que já arranjava um empreguinho num café ou restaurante. Já se você tinha mais pique e vontade de estudar conseguia arranjar sem problemas um trabalho num banco ou numa grande empresa, teria uma boa casa em Frankfurt, um Volkswagen do ano e viajaria de tempos em tempos. Uma imensa sociedade em terapia ocupacional coletiva. Simples assim.

Sabe, as vezes sinto que o mundo se tornou tão complexo e cheio de informação que as pessoas ficam sem saber por onde começar. Aliás, a gente fica até sem saber o que sentir, quer dizer, é pra eu ficar feliz e otimista porque o nível de desmatamento de 2009 caiu 34.586% em relação ao último trimestre de 2008 ou devo achar que o mundo vai acabar em 2012? Isso da bolsa estar num pico e o dólar num vale é motivo de alegria ou de preocupação? Será que eu posso ser uma pessoa feliz sem ter ouvido o novo disco do Tv on the Radio ou sem ter provado as novas safras de vinhos tempranillos da Espanha? Ainda conseguiremos nos agradar, mesmo desconhecendo as 415 novas posições sexuais do Kama Sutra Volume 13?

Talvez viver seja algo mais simples do que isso e muitas vezes atinge-se a felicidade com coisas triviais, como conseguir caminhar sozinho até a porta de casa, regar as plantas sem dor, ganhar num jogo de damas, passar por uma boa noite de sono ou ter memória suficiente para chegar até o final das palavras cruzadas. E para esse tipo de realização, o mais indicado não é o super guru dos negócios e da auto-ajuda, mas um bom terapeuta ocupacional, este sim, um profissional que faz algum sentido num mundo cada vez mais difícil e menos humano.

domingo, 15 de novembro de 2009



Para aqueles momentos em que a vida faz todo o sentido.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Filme #54

De todos os diretores que se propõem a discutir a realidade, acho Pasolini o mais criativo. Um filme, para Pasolini, nunca é a correspondência registrada de uma cena viva, presente, concreta, "real", mas é, pelo contrário, uma morte. Essa morte, contudo, é a verdadeira responsável pela valorização das ações, como nos diz o próprio diretor numa frase inspirada: "morrer é absolutamente necessário, pois enquanto estivermos vivos nos falta sentido".


Em seus filmes, Pasolini busca o real, mas esse real não é uma simples homologia do natural, um registro neutro, é um real dotado de sentido. É somente assim que podemos entender a maneira pela qual o diretor trata com a maior naturalidade temas utópicos. Sua Trilogia da Vida fala de tempos distantes e felizes e, embora saibamos que ele nos narre um mundo fictício, não deixamos de crê-lo existente. Talvez essa seja a grande função dos artistas: nos remeter a um outro universo, inexistente, posto que simbólico, mas possível, já que baseado no real. Não é de se estranhar, nesse sentido, que Pasolini marque sua presença física em pelo menos dois filmes - o Decamerão e os Contos de Canterbury - atuando justamente no papel de um artista.


Outra idéia que é preciso combater: a de que seus filmes são "explícitos". Diferentemente do que querem crer muitos de seus críticos, o sexo para o diretor italiano é muito mais do que o mero registro da relação carnal, ele é - sobretudo em seu filme seminal Teorema - algo repleto de sentidos e valores transformadores, uma coisa assim, símile a um milagre, uma redenção ou um imenso perdão. Disse Fernão Ramos sobre o italiano que o "o sentimento trágico da finitude da vida é uma espécie de consolação". Nessa chave, seu tão aclamado homoerotismo vira quase que um programa político, uma grande mensagem utópica como que dizendo "falos do mundo, uni-vos!".


Pasolini dizia que o cinema era um grande plano-seqüência, do tamanho e da duração da vida, uma imensa projeção sem cortes e que cabia ao cineasta interromper essa duração, transformando em passado uma imagem eterna do presente. O ato dessa interrupção, o filme, é um ato de morte. Essa morte, contudo é absolutamente indispensável, tanto quanto é o assassinato de Laio por seu filho Édipo na antiga tragédia grega. É somente depois desse crime que a vida do rei de Tebas começa a ter um sentido, por mais trágico que ele seja. Talvez tenha sido justamente por essa razão que Pasolini tenha concebido um filme sobre o mito grego, filme, aliás, genial.


Édipo Rei, P.P.Pasolini, 1967.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Filme #55

Olha, eu confesso que não iria colocar nenhum filme do Buñuel nesta minhas lista, mas depois dessa história de hordas de estudantes querendo estuprar uma menina de mini-saia, preciso admitir que os tempos estão surreais. Quem sabe um dia eu consiga, por fim, entender o mundo, esse obscuro objeto do desejo.

Esse obscuro objeto do desejo, Luis Buñuel, 1977.

domingo, 8 de novembro de 2009

Brechtiana - Parte 4

Deu na Folha dessa semana que os bares de Curitiba querem fazer uma cadastro online de clientes baderneiros. Passando por cima das determinações de um insignificante documento brasileiro (a Constituição) e ignorando as decisões de uma caduca instituição (a Justiça), os donos dos referidos estabelecimentos criam um regime de lei próprio. Assim, um eventual envolvido numa briga estaria, nesse sentido, sumariamente vetado nos demais bares da germânica capital paranaense.

A idéia - embora as informações oficiais não o digam - é que o referido cadastro poderia ser utilizado, futuramente, para proibir também a entrada de ex-presidiários, pobres, negros, mendigos, prostitutas, ciganos, imigrantes ilegais, nordestinos, judeus, canhotos, deficientes físicos, homossexuais e demais povos não-descendentes da raça ariana.

Isso sem falar, claro, em estudantes que ofendam a moralidade do ambiente, utilizando vestidos curtos demais.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Filme #56

Disse o filósofo latino Longino que o sublime é o eco da grandeza a alma e que ele pode existir mesmo na total ausência de palavras, completamente nu e desprovido de pompa e grandeza. O pensador operava, claro, dentro dos gêneros retóricos: por vezes, o ato de se calar promove um impacto retórico infinitamente maior do que o mais prolixo discurso. Saber valorizar e trabalhar com o silêncio, contudo, é uma tarefa dificílima, operada por um seleto grupo de gênios.

Tomemos dois exemplos clássicos da cinematografia francesa: Hiroshima, mon amour de Alain Resnais e Pickpocket de Robert Bresson. Os dois filmes foram lançados em 1959 e eu os coloco como antípodas. O primeiro trata do relacionamento de uma atriz francesa com um arquiteto japonês. O filme utiliza bastante do recurso dos flashbacks trazendo à tela recordações e muitas cenas de guerra e terror. Já Pickpocket fala sobre a vida e as dificuldades de um batedor de carteiras parisiense.

Além, claro, do conteúdo, o que torna os filmes tão diferentes é a maneira pela qual as imagens são conduzidas. Em Hiroshima, mon amour a direção faz questão de inserir comentários quadro a quadro: mesmo diante das mais fortes imagens e cenas de Guerra, a voz em off dos personagens é extensiva: com uma metralhadora de palavras ao fundo, Resnais parece querer conduzir moralmente o espectador pela mão, obrigando-o a deter-se e chocar-se nesta ou naquela cena. As conversas entre os personagens não servem como ponto de fuga, mas sim como intensificadores. Do ponto de vista retórico, o filme não é uma metáfora, mas sim uma hipérbole - a hipérbole do absurdo de uma guerra nuclear.

Pickpocket, diferentemente, é um filme absolutamente mínimo. Sem música, sem psicologismo, quase sem nada, os personagens estão restritos as suas ações. Diferentemente de Resnais, Bresson não tenta verbalizar as dores e os sofrimentos, pelo contrário: ele acredita que as imagens conseguirão, por si só, explicá-las melhor. O olho, contudo, fica como que querendo entender melhor, buscando pontos auxiliares (sons, jogadas de câmera, cortes) que facilitem sua compreensão emotiva, mas Bresson não os oferece. Aqui, acho que a figura de linguagem que mais tem a ver é a da elipse, isto é, uma omissão deliberada de termos de uma frase.

Dizer que Bresson é melhor que Resnais seria uma tolice, mas temo que Hiroshima mon amour tenha envelhecido mal. Olhando-o outro dia, achei o filme um pouco over. Achei os diálogos exagerados e meio mal-posicionados. É a velha história: ante a imagem de uma explosão nuclear ou de vítimas sofrendo cabe dizer algo? É preciso dizer algo? Não será aí o caso de deixar a cena falar por si, em respeito tanto às pessoas nela expostas quanto ao próprio espectador? Como numa hecatombe, Resnais fez um filme "total" - mas em sua totalidade ele parece ter aniquilado aquilo que ele mais queria proteger: o humano. Bresson, por outro lado, fez um filme repleto de lacunas e vazios. Seus personagens não são nem mais nem menos acessíveis, mas o silêncio do filme é, também ele, um agente da história - velado, inquieto e sublime.


Pickpocket, Robert Bresson, 1959.